| Ano | 1984 | Álbum | 1º | País | Hungria |
| Subgênero | Space Rock | ||||
| Temática | Literatura de ficção científica | ||||
| Formação Principal | Músicos Convidados |
| - Róbert Erdész (teclados) - Attila Kollár (flauta) - István Cziglán (guitarra) - Tamás Pócs (baixo) - László Gömör (bateria) |
- Casaba Bogdan (guitarra) - Gabor Kisszabo (baixo) - Ferenc Raus (bateria) - Vilmos Toth (percussão) |
| A Capa do Álbum |
| A capa traz alguns elementos peculiares das Crônicas Marcianas. Há os pássaros flamejantes que eram usados para transportar os marcianos em pequenas barcas. Logo atrás dos pássaros é possível notar um casal de marcianos (devido aos olhos dourados). Quem leu o livro sabe que se trata da Sra. Ylla e do Sr. Yll. Em primeiro plano, há a máscara usada pelos marcianos para esconder seus sentimentos. Ela emitia um zumbido que atraia abelhas. E no fundo temos a imagem do planeta Terra. |
| Introdução |
| Inicialmente o termo Space Rock foi usado para designar bandas que tiveram uma fase de rock psicodélico no final dos anos 60 e migraram para um som mais ambiente ao longo dos anos 70 e 80. As letras que antes abordavam sobre temas aleatórios de forma despretensiosa passaram a ter um foco e uma temática mais definida. A banda alemã Eloy é um bom exemplo dessa transição. Já nos anos 80, Eloy lançou vários álbuns em sequência influenciado por um som space: vasto uso de sintetizadores, letras de ficção, etc. Contudo, as bandas que começaram nos anos 80 com essa mesma tendência space também foram rotuladas como Space Rock. É o caso de Solaris que, além de fazer bastante uso de sintetizadores, trouxe em seu álbum de estreia várias referências literárias de ficção científica. Alguns fãs e inclusive o famoso ProgArchives no entanto rotulam a banda como Progressivo Sinfônico, devido à sua grande semelhança instrumental às bandas clássicas dos anos 70. |
| 01. Marsbéli Krónikák I (3:34) |
| O álbum começa com uma suite dividida em 6 partes ao longo das 3 primeiras faixas sobre a obra do escritor norte-americano Ray Bradbury intitulada The Martian Chronicles (1950). O livro nada mais é do que uma compilação dos contos publicados em revistas de ficção científica e outros inéditos em forma de narrativa por episódios. O tema é a migração de terráqueos à Marte diante da iminência do fim da humanidade na Terra por conta das guerras atômicas. A banda começa a interpretar a história a partir do seu final nessa faixa. E nas duas faixas seguintes é feito um flashback do que aconteceu. Isso fica evidenciado a partir das falas marcianas (que na verdade são falas em húngaro) ditas ao longo da faixa a seguir: Megrepedt tükrök (Espelhos quebrados) Kormos acélfalak (Paredes enferrujadas) Halott szeméthegyek (Pilhas de lixo sem vida) És szennyes tavak (E lagos poluídos) Azt mondod itt élt valaha az ember? (Você disse que a humanidade costumava a viver aqui?) Parte I: Do Fim para o Começo A humanidade foi completamente varrida da Terra após a guerra atômica no ano de 2005. Restaram apenas alguns terráqueos em Marte para um novo começo ao lado dos marcianos nativos. O diálogo acima representa a visita de um marciano à Terra anos após a devastação do planeta, embora esse fato não seja narrado no livro. |
| 02. Marsbéli Krónikák II-III (6:32) |
| Parte II: As Expedições Em fevereiro de 1999, o primeiro foguete deixou a Terra rumo a Marte com dois astronautas a bordo. A marciana Ylla pressentiu telepaticamente a chegada dos terráqueos em seu planeta e admitiu ao seu marido sua atração por um dos astronautas. Tomado pelo ciúme, o Sr. Yll aguardou a chegada dos tripulantes da primeira expedição e os matou ao pisarem em solo marciano. Sem notícias da primeira expedição, a NASA decidiu enviar uma segunda expedição com 4 astronautas para verificar o que aconteceu. Eles aterrissaram em agosto de 1999. Tiveram sucesso em encontrar alguns marcianos, mas surpreenderam-se com sua hostilidade. Os marcianos não estavam acreditando nas histórias dos terráqueos. Os 4 foram conduzidos a uma espécie de manicômio marciano, onde um psicólogo atestou que o nível de loucura dos astronautas era acima do normal e os matou, matando-se em seguida. Em abril de 2000, chegava em Marte a terceira expedição com 17 terráqueos. E logo ao pisarem no planeta vermelho se espantaram ao ver a cidade americana de Green Bluffs. Muitos dos parentes mortos dos astronautas estavam vivos e convenceram os tripulantes a passarem a noite em suas antigas casas. Não passava de uma falsa realidade criada pelos marcianos para oportunamente matar os terráqueos. Junho de 2001, a quarta expedição encabeçada pelo capitão Wilder chega em Marte. Após uma ronda pelas cidades marcianas, o médico Hathaway constatou que os marcianos foram dizimados por catapora, provavelmente trazida pelos terráqueos das expedições anteriores. Spender, ainda inconformado com o extermínio dos marcianos, se dispersou do grupo para procurar algum nativo sozinho. Horas depois ele retorna ao acampamento com uma expressão mudada. Ele diz ter visto os marcianos e então mata alguns dos tripulantes. Spender explica ao capitão Wilder que a civilização marciana tem muito mais a oferecer do que a terráquea e o convida a unir-se a ele nessa nova empreitada. Embora Wilder compreenda o ponto de vista de Spender, ele recusa a proposta e acaba com o sonho do ex-companheiro atirando em seu peito. Parte III: A Colonização Notícias de que os astronautas da quarta expedição se estabeleceram com sucesso em Marte estimularam várias pessoas na Terra a tentarem algo novo em terras marcianas. Entre 2002 e 2005, Marte recebeu homens em busca de um novo começo, religiosos trazendo a mensagem de Deus, os artistas, as mulheres em busca de seus maridos ou de novos pretendentes, etc. Aos poucos, começaram a reconstruir a Terra em Marte. |
| 03. Marsbéli Krónikák IV-VI (13:15) |
| Parte IV: Dono da Metade de Marte Sam Parkhill, tripulante da quarta expedição, decidiu abrir seu próprio negócio em Marte. Montou uma lanchonete nos mesmos moldes de um estabelecimento do velho oeste americano. Certo dia, um marciano o visitou a fim de lhe entregar uma mensagem. Assustado, ele atirou e matou a criatura. Minutos depois, vários outros marcianos se aproximavam do estabelecimento com embarcações movidas a vela. Parkhill tentou fugir com sua esposa também num barco a vela atirando e eliminando boa parte dos perseguidores. No entanto, as balas acabaram e ainda restavam marcianos. Eles se aproximaram do terráqueo e lhe deram um documento que lhe concedia a titularidade de metade do planeta vermelho. Os marcianos se foram e Parkhill triunfou com a notícia. Mesmo sabendo da iminente guerra nuclear na Terra, preferiu permanecer em Marte. Parte V: A Terceira e Última Guerra Mundial O receio de perder os familiares que ficaram na Terra fez com que quase todos os terráqueos deixassem Marte rumo à terra natal. As cidades construídas em Marte ficaram às moscas. Não havia mais foguetes em Marte. Os poucos que ficaram, não teriam como sair do planeta. Na Terra, o inevitável aconteceu. A humanidade foi completamente varrida com a explosão das bombas atômicas. Parte VI: O Novo Começo Ao chegarem na Terra e perceberem que todos os parentes foram mortos e o planeta ficou completamente destruído, muitos ficaram desolados e desnorteados. Logo morreriam ali em meio aos escombros. Uma família, no entanto, conseguiu um foguete de volta a Marte para tentar um novo começo lá. Ao chegar com sucesso no planeta vermelho, o pai explodiu o foguete, desfazendo-se do único meio de voltar à Terra. E dali para frente adotaram Marte como seu novo lar. |
| 04. M'ars Poetica (6:39) |
| O título é um trocadilho entre Ars Poetica (obra do poeta romano Horácio) e Mars Poetica (Poética de Marte). Quando publicou Ars Poetica, Horácio ensinou, através de poesia, como uma poesia deve ser. Por conta disso, o poema dele é tido como metapoético e o termo ars poetica com o passar do tempo ganhou sinônimo de metalinguagem. Dessa forma, fica fácil compreender que essa é uma canção sobre outra canção, isto é, uma metacanção. É, inclusive, possível notar ao longo dessa faixa uma releitura instrumental dos trechos marcantes da suite anterior sobre as Crônicas Marcianas. |
| 05. Ha Felszáll a Köd (3:58) |
| Ha Felszáll a Köd... (1957) é o primeiro livro de ficção científica do escritor húngaro Botond-Bolics György. O Conselho dos Povos, uma entidade com representantes de quase todos os países do mundo, aprova a exploração de outros planetas como solução para a iminente superpopulação da Terra. Uma expedição liderada pelo professor Ben Joroden é enviada à Lua para estabelecer uma base de lançamentos. Da Lua, os tripulantes partem para Vênus, onde acreditavam ser o planeta com melhores condições de acolher os terráqueos. Ao chegarem em Vênus, os astronautas enfrentaram uma extensa névoa e logo se depararam com os Antroptera, criaturas aladas que lembram os morcegos a não ser pela grande estatura. O desafio de Joroden e seus tripulantes foi estudar o planeta para encontrar uma maneira de eliminar o nevoeiro, compreender a forma de vida das criaturas nativas e encontrar meios que possibilitassem a vinda de terráqueos em massa para colonizar Vênus. |
| 06. Apokalipszis (3:44) |
| Não consegui associar essa faixa a nenhum livro importante de ficção científica anterior à data do álbum. Como não encontrei nenhuma entrevista da banda falando sobre isso, só me resta interpretar livremente. Apocalipse é um sinônimo para o fim do mundo. Não por acaso, as obras literárias citadas no álbum trabalham com a noção dos humanos verem na colonização de outros planetas a solução ante o inevitável apocalipse decorrente de suas próprias ações. O tema é tão recorrente que a Ficção Científica Apocalíptica tornou-se um subgênero dos livros de sci-fi. |
| 07. E-moll Elõjáték (0:29) |
| O título indica que essa faixa é um prelúdio em Em (Mi menor). |
| 08. Legyõzhetetlen (2:46) |
| Niezwyciężony (1964) é um livro de ficção científica do escritor polonês Stanislaw Lem. O título do livro variou de acordo com o idioma de cada país. Em Portugal, foi intitulado "A Nave Invencível". Na Hungria, "Legyõzhetetlen". A forma mais conhecida é "The Invincible". A nave chamada Invencível pertencia à classe mais poderosa de naves de toda a constelação de Lira. Nada parecia abalar sua estrutura. Porém, uma nave da mesma classe chamada Condor não retornou de uma missão no planeta Régis III. A nave Invencível foi, então, atrás da unidade desaparecida para investigar o que de fato acontecera. No planeta, a tripulação se deparou com micromáquinas insectóides, aparentemente abandonadas na região por uma civilização alien. À primeira vista, os insetos robóticos não parecem ameaçadores quando estão dispersos. Porém, quando se juntam em grandes enxames, emitem um poderoso campo de interferência eletromagnética capaz de envolver qualquer inimigo. Mesmo com todos os avanços tecnológicos, os humanos não conseguiram lidar com essas nanocriaturas e abortaram a missão, abandonando o planeta. |
| 09. Solaris (4:53) |
| Solaris (1961) é o mais importante livro de ficção científica de Stanislaw Lem. Foram quase 200 anos de estudos para os cientistas constatarem que há um vasto oceano num planeta distante denominado Solaris. Uma estação espacial foi colocada em órbita no planeta e uma equipe de cientistas começou a explorá-lo. Porém, o oceano agia de maneira imprevisível de acordo com as ações dos pesquisadores. Tão-logo ficou constatado que esse oceano tinha o poder de fazer projeções das lembranças e fantasias traumáticas de cada tripulante. Ao lidar com essas projeções, os cientistas começaram a desenvolver comportamentos caóticos. A base na Terra então enviou o psicólogo Kris Kelvin à estação para procurar entender o que estava acontecendo. No entanto, não demorou muito para o oceano buscar um trauma do novo tripulante. Kelvin se deparou com a cópia da sua mulher que havia se suicidado - ele sempre se culpou por isso. Aos poucos Kelvin percebeu que aquilo era obra da influência do oceano em suas mentes. Num dado momento, ele decide deixar a estação e pousar o helicóptero numa ilha na superfície do planeta, a fim de estabelecer qualquer contato com essa inteligência alienígena. Porém, ele sente que o oceano o ignora. Mesmo quando coloca sua mão na beira da praia para ser encoberta pela água, a mesma não o encobre. Frustrado, Kelvin não sabe se deve continuar no planeta esperando que algo aconteça ou se deve voltar à Terra sem respostas. |
| 10. Orchideák Bolygója (3:17) |
| Der Orchideenkäfig (1961) é um livro de ficção científica do escritor austríaco Herbert W. Franke. O título da obra variou de acordo com cada idioma, como por exemplo: Orchideák Bolygója (húngaro) e The Orchid Cage (inglês). Um grupo de terráqueos fazem uma expedição a um longínquo planeta com características semelhantes as da Terra. Lá eles avistam uma cidade medieval em ruínas. Movidos pela curiosidade, vão abrindo caminho. Na medida em que avançam em direção ao centro da cidade, se deparam com ambientes cada vez mais sombrios e modernos. Até que finalmente se veem num local sem saída. De repente um robô em forma de cubo anuncia que será o defensor deles num julgamento que está para acontecer. O defensor informa que eles estão sendo acusados, com base nas próprias leis da Terra, dos crimes de ameaça à segurança pública, destruição de propriedade estrangeira, entrada ilegal ou uso não-autorizado de armas de fogo, contrabando, violação grave da paz, violação de precauções de proteção tomadas contra a contaminação radioativa, dentre outros. Os terráqueos reconhecem que cometeram esses crimes, mas ficam surpresos em serem julgados num planeta como aquele. Sem muitas escolhas, decidem contar a verdade ao robô defensor a fim de que ele elabore uma defesa consistente no tribunal. Chega o momento do julgamento. Um robô representando a acusação, outro como defesa e o presidente do tribunal dão início à sessão. Após ouvirem todos os argumentos, inclusive testemunhas, o presidente encerra a sessão e deixa o veredito para a Máquina da Lógica. Essa máquina demonstra os argumentos que definem sua sentença: condenados à morte por gás. Os terráqueos são conduzidos a uma câmara com um gás insuportável, porém um deles consegue convencer o robô que os vigiava a tirá-los dali, ao trocarem informações técnicas sobre o universo. Nesse momento, o robô mostra um local repleto de orquídeas brilhantes dentro de gaiolas. Ele explica que as orquídeas canalizam os sentimentos, sensações, etc, humanos. A população do planeta está ali. Os robôs nada mais são do que uma alternativa física para se adaptarem melhor ao meio, sendo controlados por essas orquídeas. O caminho então é liberado para os terráqueos voltarem à sua terra natal. |
| 11. A Sárga Kör (4:54) |
| Essa é outra faixa sem correspondência literária, embora seu instrumental e o título nos dê uma dica do propósito da banda aqui. O título significa "Círculo Amarelo". Ao longo da música, pode-se ouvir um instrumental um tanto incomum para o estilo do álbum. Um som com muitas percussões, comumente associado a tribos indígenas. Se pegarmos a bandeira dos aborígenes, notaremos um círculo amarelo centralizado que representa o sol, além da parte superior em preto que representa o homem e a parte inferior em vermelho que representa a terra. Ou seja, o círculo amarelo nada mais é do que o sol. |
| Notas Finais |
| O álbum inicialmente foi lançado em LP (1984), depois em CD (1988) e ganhou uma edição especial com duas faixas extras (1995), que são as duas últimas analisadas nesta resenha. Sobre as Crônicas Marcianas O leitor provavelmente notou que a previsão de Ray Bradbury do homem chegar em Marte no ano de 1999, embora à época do livro (1950) fosse uma previsão possível, na prática não aconteceu. Para não descartar essa possibilidade, o livro chegou a ser relançado em 1997 com todas as datas avançadas em 31 anos. Ou seja, na verdade o homem chegaria à Marte em 2030 e a Terra seria devastada em 2036. Em 1979, foi produzida pela BBC e NBC uma minissérie com 3 episódios de uma hora e meia cada baseada no livro "The Martian Chronicles". A série é facilmente encontrada em sites como youtube. Embora a história seja inteiramente contada, há algumas distorções nas datas e nos eventos se comparados ao livro. No entanto é recomendável a título de curiosidade. Sobre "Ha Felszáll a Köd" Interessante notar que nos anos 50 falava-se muito da possibilidade de se habitar Vênus, tendo em vista os estudos científicos na época. Isso inspirou vários escritores a abordarem essa temática. Porém, a coleta de dados do planeta pelas sondas espaciais nos anos seguintes revelou que essa possibilidade é quase nula. Por conta disso, ambos leitores e escritores perderam o interesse em explorar Vênus na ficção científica. Sobre "Solaris" Há dois longa-metragens baseados no livro: um de 1972 dirigido pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky e um de 2002 dirigido pelo cineasta americano Steven Soderbergh. Ambos os filmes desagradaram Stanislaw Lem porque deram mais ênfase ao romance envolvendo o protagonista e a projeção da sua mulher, ao invés de darem ênfase ao tema mais importante que é o fracasso em comunicar-se com seres extraterrestres mesmo com todos os avanços tecnológicos. Em seu site oficial, ele desabafou: "eu chamei o livro de 'Solaris' e não de 'Amor no Espaço Sideral'". Para o leitor que quiser se aprofundar nessas obras clássicas de ficção científica, disponibilizo os livros que me guiaram nessa resenha. Infelizmente alguns estão em húngaro, mas é possível traduzi-los. O arquivo .zip contém: - Bradbury Ray - The Martian Chronicles (.pdf inglês) - Bradbury Ray - The Martian Chronicles (.pdf português) - Horácio - Ars Poetica (.pdf latim/português) - Botond-Bolics György - Ha Felszáll a Köd (.doc húngaro) - Stanislaw Lem - Legyõzhetetlen (.doc húngaro) - Stanislaw Lem - Solaris (.pdf inglês) - Stanislaw Lem - Solaris (.pdf português) - Herbert W. Franke - Orchideák Bolygója (.doc húngaro) 4shared |


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